8 de dez de 2016

O sangue ancestral das mulheres (Marcela Zaroni)



O sangue ancestral das mulheres 


“Sangrar mensalmente me vincula a outras mulheres, através de um laço profundo, visceral e ancestral. Honro mensalmente este dom da criação e da vida-morte e vida, que manifesto através do meu corpo. Me recolho a cada lua, e diante do meu altar entrego meus anseios, peço por orientações, busco mensagens nos oráculos e faço minhas oferendas. Sangrar é minha conexão direta com o aspecto em mim que manifesta a mulher-sábia, esta que me leva a tirar das experiências da vida e do mundo dos sonhos, as mensagens que surgem de dentro, colhidas do interior do meu ventre fértil, e que me tornam mais fortalecida ciclo a ciclo, refletindo e aprendendo mais integralmente sobre meus aspectos de luz e sombra.
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Sangro mensalmente e partilho esta dádiva com as minhas irmãs em círculo. Sou algo que se possa chamar uma sacerdotisa da lua. Sou, não porque porque realizei alguma iniciação maior dentro de alguma ordem ou religião, mas sim porque ritualizo e torno sagrada a minha vida a partir deste encontro com meu próprio corpo e com a medicina da lua. E sei, que pelas quatro direções de nossa Mãe-terra, que muitas mulheres, e cada vez mais, vem adotando este caminho, esta senda, com amor, entrega e devoção. E que embora seja uma caminho possível para todas (mesmo aquelas que deixaram de sangrar), é também uma trajetória individual, pelos labirintos de si mesma. Um tempo para a escuta interna e oracular. De se purificar e de renovar, tal como a lua que morre e renasce no céu mensalmente…

Celebro e vivifico este momento, onde me reconheço integrada a natureza maior, a natureza das fêmeas, mamíferas, ainda que eu também traga no corpo cada marca dolorosa e memória humana deste clã ancestral feminino. Trago o grande manto vermelho costurado por milhares de histórias desde o início dos tempos, de segredos e tendas, de tabus e medos, de re-apropriações e reencontros – todas as histórias possíveis já contadas por homens e mulheres sobre o significado e poderes do sangue feminino. Visto-o, e de tão longo que é, sinto que também sou parte daquelas que o tecem. Sou a bordadeira que, a cada ciclo, enlaço com minhas irmãs, as minhas memórias positivas e poderosas histórias que emergem com o meu sangue de mulher. O sangue que mantêm e perpetua a vida da minha espécie na terra.”

Texto: Marcela Zaroni Criadora e coordenadora do 
Blog Matricaria – ecologia feminina

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