23 de fev de 2017

As Mulheres na Cultura Védica - Kamalaksi Rupini

As Mulheres na Cultura Védica
Seja como a base da família, a educadora dos filhos, a força e a conselheira do marido, pregadora do conhecimento espiritual, governante sábia ou parte essencial dos sacrifícios religiosos, a instrução védica é clara: as mulheres devem ser protegidas e tidas na mais alta estima por toda a sociedade.
Na Bhagava-gita, capítulo 10, verso 34, Krishna diz: “Entre as mulheres, sou a fama, a fortuna, a linguagem afável, a memória, a inteligência, a firmeza e a paciência.” Estas opulências são consideradas femininas e são personificadas nas esposas de Dharma. A deusa da fortuna, Lakshmi; a deusa da sabedoria, Sarasvati; a deusa que é a mãe dos Vedas, de onde vem todo o conhecimento, Gayatri – são todas mulheres divinas. Vemos também que os rios, considerados tão sagrados e auspiciosos para toda a humanidade, como Yamuna, Ganges, Sarasvati, entre tantos outros, são deidades femininas. Além disso, quando nos referimos às divindades, o nome feminino vem sempre primeiro e, portanto, dizemos: Radha-Krishna, Sita-Rama, Lakshmi-Narayana e assim por diante. Partindo dessas observações, podemos refletir sobre a importante posição da mulher dentro da cultura védica.
A mulher é a shakti, a potência, sem a qual nada pode ser realizado. Desse modo, a mulher exercia um papel primordial nos deveres religiosos, nos sacrifícios de fogo, que eram realizados em diversas ocasiões, como cerimônia de nascimento, escolha do nome do bebê, casamento, cerimônia fúnebre, entre outras. Sem a presença dela, todos esses ritos essenciais aos membros da civilização védica simplesmente não podiam ser realizados. O Rig Veda (1.79.872) diz: “A esposa deve realizar agni-hotra (yajna ou sacrifício), sandhya (puja) e todos os outros rituais religiosos diários. Se, por alguma razão, seu marido não está presente, a mulher sozinha tem total direito de realizar yajna.” Porém, sem a esposa, o marido não pode realizar yajna. Deste modo, quando um homem ficava viúvo, ele não podia mais realizar tais sacrifícios. Na história do Senhor Ramachandra, uma das formas de Krishna, é relatado que, certa vez, Ele foi realizar um agni-hotra, mas, como Sua esposa, Sita, não estava com Ele, Ele teve que usar uma deidade de Sita feita de ouro e colocá-la junto dEle na arena de sacrifício para que este pudesse ser feito.
As mulheres participavam de todos os tipos de atividades, de acordo com sua natureza, assim como os homens faziam. O Rig Veda (10.191.3) instrui: “A esposa e o marido, sendo metades iguais de uma mesma substância, são iguais em todos os aspectos; deste modo, ambos devem se juntar e tomar partes iguais em todo trabalho, tanto religioso quanto secular.” O Yajur Veda (20.9) diz: “Homens e mulheres têm direitos iguais de serem apontados como governantes”. Deste modo, a mulher tinha importante papel em todos os aspectos da vida social. Como esposa, ela deveria instruir e ajudar o marido de diversos modos. O Atharva Veda (7.46.3) diz à esposa: “Ensina teu marido a conquistar riquezas.” A mulher, sendo representante de Lakshmi na vida familiar, era também responsável por administrar todos os bens da família e manter as tradições.
Lakshmi, a deusa da fortuna.
Assim, a mulher era considerada a base do lar. Ela era chamada patni, aquela que lidera o marido pela vida; dharma-patni, aquela que guia o marido no dharma, e sahadharmacharini, aquela que segue com o marido no caminho do dharma. Isso era possível graças à educação material e espiritual que a mulher recebia, conforme ordenado no Atharva Veda, que diz que as meninas deveriam se tornar completamente eruditas antes de entrarem na vida familiar. Do mesmo modo, o Rig Veda declara: “Um veda, dois vedas ou quatro vedas, junto com ayurveda, dhanurveda, gandharva-veda etc., e junto com educação, kalpa, gramática, nirukti, astrologia, métrica, ou seja, os seis vedangas, devem ser conhecidos pela mulher de mente pura, que é como uma água pura e cristalina, e que dissemina esse conhecimento diversificado entre as pessoas.” Assim fica claro também o papel da mulher como instrutora não apenas dos filhos e conselheira do marido, mas também como fonte disseminadora do conhecimento para toda a sociedade. Algumas dessas mulheres optavam por se dedicarem integralmente ao estudo espiritual, permanecendo solteiras, as quais eram chamadas de brahmavadinis), enquanto outras optavam por serem educadas para uma vida de casada, o que incluía tanto o estudo espiritual quanto o estudo de deveres específicos de sua casta, de sua natureza (como manejar arco e flecha, dirigir quadrigas, realizar sacrifícios de fogo etc.), as quais eram chamadas de sadyovadhus.
É frequente as mulheres serem altamente louvadas pelas escrituras devido ao seu elevado caráter, inteligência e boas qualidades. De fato, há algumas histórias que descrevem mesmo esposas que enganam a morte ou a subjugam e, assim, salvam a vida de seus maridos. Sem falar nos acontecimentos desastrosos ocorridos devido a ofensas cometidas contra mulheres, como a guerra de Kurukshetra, a famosa batalha na qual Krishna falou a Bhagavad-gita e que foi deflagrada devido à ofensa dos Kauravas contra Draupadi, a esposa dos Pandavas, quando os primeiros tentaram despi-la em frente a uma assembleia.
Por outro lado, dentre as qualidades consideradas femininas, também se destacam o coração macio, fé e inocência, o que pode torná-las presas de pessoas com más intenções. E tanto por isso quanto por sua importância social e espiritual, às vezes as escrituras falam da necessidade das mulheres serem protegidas, assim como devem ser protegidos os brahmanas ou sacerdotes, as vacas, as crianças e os mais velhos. Os brahmanas são aqueles que fazem parte da classe mais alta da sociedade e a quem todos prestam suas reverências, as crianças são o futuro da nação, os mais velhos são o reservatório de conhecimento, e as vacas são os animais mais sagrados, sem os quais não há sacrifícios religiosos, uma vez que a manteiga é um ingrediente essencial para isso. Quando se colocam esses elementos da sociedade e as mulheres na lista dos que devem ser protegidos, isso de maneira alguma é um atestado de incapacidade da mulher, mas, sim, uma prova de sua posição importante e elevada.
Por fim, tendo liberdade para trabalhar de acordo com sua natureza, para escolher seu companheiro, para escolher se quer casar ou permanecer solteira, se quer se dedicar à vida espiritual exclusivamente ou se dedicar ao cuidado da família, a máxima védica “que todos sejam felizes” aplica-se também, obviamente, à mulher. De qualquer modo, ela deve ser extremamente respeitada, seja como a base da família, a educadora dos filhos, a força e a conselheira do marido ou como aquela que é capaz de disseminar o conhecimento espiritual, que é uma governante sábia, ou que é parte essencial para a realização dos sacrifícios religiosos e, portanto, de todos os ritos pelos quais os seres humanos deveriam passar. Seja em qual posição for, o Manu-smriti (3.56-57), o livro das leis deixadas por Manu, o pai da humanidade, adverte: “Onde as mulheres são honradas, lá os deuses estão satisfeitos, mas onde as mulheres não são honradas, nenhum rito sagrado dá frutos. Onde as mulheres da família vivem tristes, a família logo perece completamente, mas a família onde elas são felizes, sempre prospera”.
Se gostou deste material, também gostará destes: Sagrado Feminino, Uma Introdução às Deusas Védicas e Seus Segredos, Srimati Radharani: Gênero, Divindade e Amor na Forma da Deusa Dourada, A Harmonia Interna de Sitadevi.

Nenhum comentário:

Postar um comentário