19 de fev de 2017

LIVRO - Autobiografia de um Iogue

Autobiografia de um Iogue, grande obra de cunho espiritual escrita por Paramahansa Yogananda, contém passagens curiosas, engraçadas e emocionantes da vida do iogue que veio ao Ocidente no século XX trazer a sabedoria milenar de seu país. Separamos cinco pequenas histórias que vão transportá-lo para o universo de Yogananda e fazê-lo desfrutar a energia maravilhosa desse grande mestre.
Autobiografia de um Iogue

PIPAS

– Por que está tão quieto? – perguntou-me Uma, dando-me um empurrão de brincadeira.
– Estou pensando como é maravilhoso que a Mãe Divina me dá tudo o que quero.
– Suponho que Ela lhe daria aquelas duas pipas! – minha irmã riu, caçoando de mim.
– Por que não? – iniciei silenciosas orações para obtê-las.
Na Índia, os meninos fazem competições com pipas cujas linhas são recobertas de cola e vidro moído. Cada jogador procura cortar a linha de seu adversário. Uma pipa solta voa sobre os telhados; é muito divertido ir apanhá-la. Estando Uma e eu numa sacada interna, recoberta de telhas, parecia impossível que uma pipa solta viesse cair em nossas mãos; sua linha naturalmente passaria flutuando sobre o telhado.
pipas
Do outro lado da estreita viela os competidores começaram o combate. Uma das linhas foi cortada; imediatamente a pipa flutuou em minha direção. Em razão de uma súbita ausência de brisa, a pipa permaneceu imóvel por um momento; nessa pausa, a linha enroscou-se em um cacto que havia no terraço da casa em frente. Um longo e perfeito laço se formou para que eu a pegasse. Passei o troféu para Uma.
– Foi apenas um acidente fora do comum, não uma resposta à sua oração. Se a outra pipa vier até você, então acreditarei.
Os olhos negros de minha irmã denunciavam mais assombro que suas palavras. Continuei a orar intensamente. Um puxão mais forte do outro jogador causou a brusca perda de sua pipa. Ela veio em minha direção, dançando com o vento. Meu prestativo ajudante, o cacto, novamente prendeu a linha da pipa com o laço suficientemente longo para que meu braço a alcançasse. Apresentei o segundo troféu a Uma.
– Realmente a Mãe Divina o escuta! É tudo misterioso demais para mim! – E minha irmã disparou a correr como uma corça assustada.

YOGANANDA É APRESENTADO A LAHIRI MAHASAYA

Lahiri Mahasaya
(…) dissera a minha mãe:
Chegou a hora em que devo relatar alguns fenômenos extraordinários acontecidos após o seu nascimento. Conheci a senda reservada a você quando ainda era um bebê em meus braços. Naquela época, levei-o no colo à casa de meu guru em Benares. Eu mal podia ver Lahiri Mahasaya, sentado em meditação profunda, quase escondido atrás de uma multidão de discípulos.
Enquanto o acalentava, eu orava para que o grande guru nos percebesse e abençoasse. À medida que meu silencioso pedido devocional crescia em intensidade, ele entreabriu os olhos e fez sinal para que me aproximasse. Os outros abriram caminho; curvei-me diante dos pés sagrados. Lahiri Mahasaya colocou você no colo dele, pousando a mão em sua fronte, à guisa de batismo espiritual.
“– Mãezinha, teu filho será um iogue. Como uma locomotiva espiritual, levará muitas almas ao reino de Deus.”
Meu coração saltou de alegria ao perceber que minha súplica secreta tinha sido atendida pelo guru onisciente. Pouco antes de seu nascimento, Mukunda, Lahiri Mahasaya me disse que você seguiria o caminho dele.

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ENCONTRO COM O MESTRE SRI YUKTESWAR

Sri Yukteswar
Juntos, Habu e eu saímos para um distante mercado, na seção bengali de Benares. O inclemente sol indiano ainda não estava no zênite enquanto fazíamos nossas compras nos bazares. Íamos abrindo caminho através da colorida miscelânea de donas de casa, guias, sacerdotes, viúvas trajadas com simplicidade, brâmanes com ar de dignidade e ubíquos touros sagrados. Enquanto Habu e eu prosseguíamos, voltei a cabeça para examinar uma viela estreita e insignificante.

Um homem de aspecto crístico, com as vestes de cor ocre dos swamis, permanecia imóvel no fim da viela. Pareceu-me de uma familiaridade ao mesmo tempo instantânea e antiga; por um momento, meu olhar ávido demorou-se nele. Então a dúvida me assaltou.
“Você está confundindo este monge errante com alguém conhecido”, pensei. “Sonhador, continue seu caminho.”
Dez minutos depois, senti em meus pés uma dormência pesada. Como se tivessem virado pedra, eles eram incapazes de me levar adiante. Laboriosamente dei meia volta; meus pés tranquila figura, que olhava firmemente em minha direção. Alguns passos ansiosos e eu estava a seus pés.
– Gurudeva! – Sua face divina era aquela que eu tinha visto em milhares de visões. Os olhos de alcíone, numa cabeça leonina com barba em ponta e mechas de cabelo flutuante, haviam frequente mente assomado na escuridão de meus devaneios noturnos, penhores de uma promessa que eu não compreendera inteiramente.
– Você que é meu, você veio a mim! – Meu guru pronunciou estas palavras repetidas vezes, em bengali, com a voz trêmula de alegria. – Quantos anos esperei por você!
E então nos unimos no silêncio; as palavras nos pareciam grosseiras e supérfluas. A eloquência fluía em cântico insonoro, do coração do mestre ao discípulo. Com uma antena de incontestável percepção interior, senti que meu guru conhecia Deus e me levaria até Ele. A obscuridade desta vida desvaneceu-se numa frágil madrugada de lembranças pré-natais. O tempo é um drama! Passado, presente e futuro são suas cenas cíclicas. Esse não era o primeiro sol a me encontrar prostrado ante aqueles santos pés!

ENCONTRO COM BABAJI E A MISSÃO DE VIR AO OCIDENTE

babaji
Ao fazer os preparativos para deixar o Mestre e minha terra natal rumo à costa desconhecida da América, experimentei certa inquietude. Ouvira muitas histórias sobre o “Ocidente materialista”: uma terra muito diferente da Índia, impregnada da aura secular dos santos.

“Para desafiar os ares ocidentais”, pensei, “um instrutor oriental deve resistir a provas muito mais duras que o frio do Himalaia!”
Certa manhã bem cedo, comecei a orar, com a inflexível determinação de continuar rezando até morrer, ou até ouvir a voz de Deus. Queria Sua bênção e a garantia de que eu não me perderia nas brumas do utilitarismo moderno. Meu coração se dispunha a ir à América, mas com força ainda maior ele estava resolvido a ouvir o conforto da permissão divina.
Orei e orei, abafando os soluços. Nenhuma resposta veio.
Ao meio-dia atingi o zênite; minha cabeça girava sob a pressão da agonia. Senti que se clamasse mais uma vez, aumentando a profundidade de minha paixão interior, meu cérebro explodiria.
Naquele momento ouvi uma batida na porta de minha casa de Garpar Road. Atendendo ao chamado, vi um jovem vestido com o traje escasso do renunciante. Ele entrou.
“Deve ser Babaji!” pensei, ofuscado, pois o homem à minha frente tinha os traços de um jovem Lahiri Mahasaya. Ele respondeu ao meu pensamento: – Sim, sou Babaji. – Falava melodiosamente em híndi. – Nosso Pai Celestial ouviu sua oração. Ele ordena que lhe diga: “Obedeça a seu guru e vá para a América. Não tema: será protegido.”
Após uma pausa vibrante, Babaji dirigiu-se a mim novamente: – Foi você quem eu escolhi para difundir a mensagem da Kriya Yoga no Ocidente. Há muito tempo encontrei seu guru Yukteswar num Kumbha Mela e lhe disse então que enviaria você a ele para treinamento.
Eu estava sem fala, engasgado de reverente devoção por sua presença e profundamente comovido por ouvir, de seus próprios lábios, que ele me guiara até Sri Yukteswar. Prosternei-me aos pés do guru imortal. Afavelmente, ele me ergueu. Depois de dizer muitas coisas sobre minha vida, deu-me certas instruções pessoais e fez algumas profecias secretas.
– Kriya Yoga, a técnica científica de realização divina – disse finalmente com solenidade –, terminará por difundir-se em todas as terras e ajudará a harmonizar as nações por meio da percepção pessoal e transcendente que o ser humano terá do Pai Infinito.
Com um olhar de soberano poder, o mestre eletrizou-me com um vislumbre de sua consciência cósmica.
“Se, de repente, em pleno firmamento Mil sóis surgissem, todos num momento, A inundar a terra de fulgor, Talvez possível fosse, então, fazer Uma remota ideia do esplendor E majestade do Sagrado Ser” – Bhagavad Gita XI:12 (tradução de Sir Edwin Arnold para o inglês)
– Por favor, Babaji, não vá embora – gritei repetidamente. – Leve-me em sua companhia!
Ele respondeu: – Agora não. Em outra oportunidade.
Dominado pela emoção, desconsiderei sua advertência. Tentando segui-lo, descobri que meus pés estavam firmemente enraizados no chão. Da porta, Babaji lançou-me um último olhar afetuoso. Meus olhos se fixaram nele ansiosamente, quando sua mão se ergueu num gesto de bênção e ele se afastou.

YOGANANDA E GANDHI

gandhi
Na noite anterior, Gandhi manifestara o desejo de receber a Kriya Yoga de Lahiri Mahasaya. Comoveu-me a mentalidade aberta do Mahatma e seu espírito de pesquisa. Ele se parece a um menino em sua divina busca, re velando a pura receptividade que Jesus enalteceu nas crianças: “(…) delas é o reino dos céus”.

Chegara a hora de minha prometida instrução; diversos satyagrahis entraram na sala: o Sr. Desai, o Dr. Pingale e alguns outros que desejavam a técnica de Kriya.
Ensinei primeiramente à pequena classe os exercícios Yogoda. Visualizase o corpo dividido em 20 partes; a vontade dirige a energia para cada parte, sucessivamente. Logo, todos vibravam à minha frente como motores humanos. Era fácil observar as ondas de energia nas 20 partes do corpo de Gandhi, quase sempre completamente visíveis! Apesar de muito magro, sua aparência não é desagradável; a pele de seu corpo é suave e sem rugas.
Depois, iniciei o grupo na técnica libertadora de Kriya Yoga.
O Mahatma estudou, com reverência, todas as religiões do mundo. As Escrituras jainas, o Novo Testamento da Bíblia e a obra sociológica de Tolstói são as três fontes principais das convicções de não-violência de Gandhi. Ele afirmou o seu credo da seguinte maneira:
“Creio que a Bíblia, o Alcorão e o Zend-Avesta vêm da mesma inspiração divina que os Vedas. Creio na instituição dos Gurus, mas nesta era milhões de criaturas precisam caminhar sem Guru, porque é raro encontrar uma combinação de pureza perfeita e de conhecimento perfeito. Ninguém, entretanto, se desespere de ja mais vir a conhecer a verdade de sua religião, porque os fundamentos do hinduísmo, como os de todas as grandes religiões, são imutáveis e facilmente compreensíveis.
Creio, como todo hindu, em Deus e em Sua unidade, no renascimento e na salvação (…). Meus sentimentos pelo hinduísmo são tão indescritíveis como os que tenho por minha própria esposa. Ela me comove como nenhuma outra mulher do mundo o pode fazer. Não que seja isenta de defeitos; ousaria dizer que ela possui muito mais defeitos do que vejo. Mas entre nós existe o sentimento de um vínculo indissolúvel. Sinto o mesmo pelo hinduísmo com todas as suas faltas e limitações. Nada me encanta mais que a música do Gita ou o Ramayana de Tulsidas. Quando eu imaginava estar exalando o último suspiro, o Gita era o meu consolo.
Gandhi e Yogananda
Yogananda e Gandhi
O hinduísmo não é uma religião exclusivista. Nele existe lugar para o culto a todos os profetas do mundo. Não é uma religião missionária no sentido comum do termo. Indubitavelmente ele absorveu muitas tribos em seu seio, mas esta absorção foi de caráter evolutivo, imperceptível. O hinduísmo ensina cada homem a adorar a Deus segundo a sua própria fé ou dharma, vivendo assim em paz com todas as religiões.”
A respeito de Cristo, Gandhi escreveu: “Tenho certeza de que se Ele vivesse entre os homens aqui e agora, abençoaria a vida de muitos que talvez nunca tenham ouvido o Seu nome (…) como está escrito: ‘Nem todo o que me diz Senhor, Senhor! (…) mas aquele que faz a vontade de meu Pai.’ Com a lição de Sua própria vida, Jesus deu à humanidade o propósito magnífico e o objetivo único a que todos deveríamos aspirar. Creio que Ele pertence não apenas ao cristianismo, mas ao mundo inteiro, a todas as nações e raças.”
Em minha última noite em Wardha, falei ao público que fora convocado pelo Sr. Desai, no salão da prefeitura. A sala estava lotada até o peitoril das janelas, com cerca de 400 pessoas reunidas para ouvir a palestra sobre yoga. Falei primeiramente em híndi e depois em inglês. Nosso pequeno grupo retornou ao ashram a tempo de dirigir um olhar de boa-noite ao Mahatma, profundamente absorto em sua correspondência e em sua paz.
Ainda era noite quando me levantei às cinco horas. A vida da aldeia começava a animar-se: primeiro um carro de bois nos portões do ashram, depois um camponês com sua enorme carga equilibrada precariamente na cabeça. Terminado o desjejum, nosso trio procurou Gandhi para os pranams de despedida. O santo levanta-se às quatro horas para a sua oração matutina.
– Mahatmaji, adeus! – ajoelhei-me para tocar-lhe os pés. – A Índia está segura sob sua guarda.

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